Segunda-feira, 14 de Julho de 2008

SOBRE A EDUCAÇÃO EM PORTUGAL: NO JORNAL O TORREJANO... 05-NOV-2007

 

« Em gestão corrente...como o País...
 
Segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
 
Duas excelentes crónicas/comentários sobre o ensino hoje, em Portugal
 
Já anteriormente chamei a atenção dos meus leitores para a excelência de dois cronistas/comentaristas de um pequeno jornal, semanario, de provincia - o Jornal Torrejano.
 
   Ambos com formação e mantendo pontos de vista de "esquerda", o que torna a minha opinião insuspeita, são professores em escolas secundárias da cidade (Torres Novas), e, penso que, ambos de Filosofia.
 
   A semana passada ambos escreveram sobre aspectos actuais do ensino.
 
   Francamente gostei e, embora não concordando com a totalidade das ideias expressas (e seria mau se tal acontecesse), rapinei e publico de seguida as suas crónicas para proveito, espero eu, dos meus leitores que, na generalidade, não têm acesso àquele jornal.
 
"Ó Ega, quem é aquele homem, aquele Sousa Neto, que quis saber se em Inglaterra havia também literatura? (…)
– Oficial Superior de uma grande repartição do Estado!
– De qual?
– Ora de qual! De qual há-de ser?... Da Instrução Pública!"
 
Eça de Queirós. Os Maias
 
Nos anos 80, vinham notícias do Afeganistão que falavam de uns estudantes de teologia que resistiam à ocupação soviética.
 
Ingenuamente, eu imaginava jovens com o ar angélico do padre Vítor Melícias, que passavam o dia a ler, meditar, enfim, a tratar da horta, e que saíram dos mosteiros para irem combater os materialistas dialécticos de Moscovo.
 
Porém, ao ver uns sujeitos andrajosos a bombardear as estátuas de Buda, com o mesmo entusiasmo que com que os caçadores, ao domingo, disparam sobre as lebres, comecei a perder as ilusões.
 
Ora, foi também isto que me aconteceu com os cientistas da educação. Que pensei eu quando comecei a ouvir falar deles? Em pessoas que dedicavam a vida a estudar a melhor maneira de levar as crianças, não só a saírem da escola sabendo muito mais do que quando entraram, mas também com a inteligência mais espicaçada.
 
Este meu idílio mental foi bom enquanto durou. Até ao dia em que comecei a perceber que trucidavam os alunos com a mesma pontaria com que os estudantes de teologia atiravam aos Budas e os caçadores às lebres.
 
São, pois, perigosos. Uma mistura de fanáticos com fé no mito do bom selvagem e de caçadores de lebres que esfolam a inteligência dos alunos, cientificamente educados pelos seus mestrados e doutoramentos. Mas o que é, afinal, um cientista da educação?
 
Alguém que passou anos a estudar para concluir que a educação deve estar centrada no aluno, que o insucesso escolar é sempre o resultado de um fracasso do professor, que este não é o detentor do saber nem está na aula para ensinar. É apenas um amigo que está ali para ajudar o aluno a pesquisar, a investigar, mas também para lhe dar quilos de auto-estima de modo a poder vir a ser um cidadão feliz.
 
Daí encarar com horror o facto de um menino poder chumbar, ainda que este ligue tanto ao estudo como um leão a uma couve-flor, ou saiba tanto do que lhe tentam ensinar como se tivesse a memória de um doente de Alzheimer.
 
Aliás, graças a este espírito evangélico, vai ser agora possível a um menino, depois de faltar 103 vezes às aulas durante um ano, porque não lhe apeteceu ir, fazer um exame para ter de passar.
 
A valorização científica de um professor é irrelevante, considerando-se mesmo reaccionária e conservadora a ideia de a escola ser um local onde os alunos tenham de usar o esforço e aprender com seriedade.
 
Daí a ideia de transformar a escola num ATL a tempo inteiro. E com disciplinas giras, como Estudo Acompanhado, Área de Projecto, Formação Cívica, as quais, para além de permitirem dar boas notas até a um ouriço-cacheiro, vão ainda contaminar as outras disciplinas, saindo os alunos da escola com o cérebro tão descompensado como o de um madeirense após um discurso de Alberto João Jardim.
 
Mas atenção. Por detrás de todo o folclore psicopedagógico que empesta o discurso do nosso talibã, esconde-se um burocrata e um frio tecnocrata. Um cientista da educação vê a escola como uma fábrica de automóveis na qual os professores têm de cientificamente aplicar os planos e metodologias inspirados nos seus nauseabundos mestrados e doutoramentos.
 
Adora ainda ver os professores em reuniões inúteis, a preencher papéis como se fossem funcionários do Registo Predial, ou então, último grito da moda, com os olhos tão especados num portátil como um esfomeado num cozido à portuguesa. Não sei explicar porquê, mas tem um fascínio quase erótico por planificações, matrizes, planos de aula ou grelhas de avaliação que parecem o cockpit de um Airbus.
 
O nosso talibã desconfia dos professores que lêem livros em vez de estarem a preencher relatórios, em reuniões, a preparar powerpoints para poder comunicar com alunos que se perdem ao fim de três frases, a transportar portáteis para a aula para os alunos pesquisarem informações na Internet que depois irão reproduzir como se tivessem o cérebro de um papagaio, ou a requisitar filmes para fomentar estratégias de ensino-aprendizagem (é assim que se diz) mais ricas e estimulantes.
 
Estes cientistas, só por si, não seriam de temer. O problema é a sua ligação ao poder político, ou pior, o facto de já serem eles o poder político. Estes talibãs não matam com explosivos. Mas matam. Matam com maçãs lindas e lustrosas com as quais recebem os alunos no início de cada ano lectivo.
 
Mas que ninguém entre em pânico. Estamos em Portugal e a falar da morte de coisas como saber, cultura, inteligência e boa educação.
 
Os pais, claro, aplaudem, os alunos rejubilam. Os professores, naturalmente, resignam-se.
 
José Ricardo Costa
 
Cientistas da Educação
 
Saíram os rankings dos exames nacionais. Este ano a propaganda em relação aos resultados obtidos por algumas, algumas, note-se bem, escolas privadas tem atingido a paranóia. Mas por que motivo certos colégios das grandes cidades obtêm melhores resultados que as escolas públicas? Há vários motivos. Uns são incontroláveis: situação geográfica, situação cultural e social dos pais, por exemplo, contribuem para explicar uma parte da diferença dos resultados.
 
Há, porém, outros motivos e estes são da responsabilidade do Ministério da Educação. Nesses colégios, o ensino é tradicional, o professor é a autoridade dentro da aula, o aluno e as famílias são responsabilizados pelo aproveitamento. Quem não gostar que se vá embora. Os professores estão concentrados no trabalho de ensinar.
 
No ensino público, há muito que não é isto o que se passa. Alunos e famílias não têm qualquer responsabilidade no aproveitamento escolar. Imagine o leitor o seguinte: um aluno não quer estudar, não lhe apetece, ou não quer ir às aulas. Acha que ele e a família são responsabilizados? Então, está enganado. Para o governo actual, o único responsável de o aluno não querer estudar ou de não querer pôr os pés na escola é o professor. Só o professor corre o risco de ser avaliado negativamente. Por outro lado, enquanto os professores dos colégios se concentram no acto de ensinar, o professor do ensino público é massacrado com reuniões, projectos, planos, relatórios, actas, grelhas, avaliações de escola e toda uma actividade idiota que o desvia da sua função: ensinar. No ensino público, tudo está feito, no âmbito da lei, para impedir os professores de ensinar.
 
Quem ler com olhos de ver o Estatuto da Carreira Docente, os documentos para avaliação de professores e o novo Estatuto do Aluno, tudo produções deste governo, descobre facilmente uma coisa: os alunos podem fazer o que lhes apetecer, podem ter o comportamento mais irresponsável que lhes aprouver. Só o professor corre o risco de ser «chumbado».
 
Nada disto se passa por acaso. Esta política tem duas finalidades: em primeiro lugar, humilhar os professores da escola pública para legitimar a sua proletarização; em segundo lugar, evitar que os alunos do interior e das classes socialmente menos favorecidas das grandes cidades vejam os seus filhos entrar para as grandes universidades. Os bons lugares da sociedade dependem de aprendizagens de alta qualidade. Ora as políticas educativas governamentais apenas tratam de assegurar a protecção àqueles que a situação social e cultural da família já protege.
 
A política educativa do actual governo é a mais abjecta de que tenho memória: nunca como agora se protegeu tanto os fortes e se prejudicou impiedosamente os fracos. O consulado de Lurdes Rodrigues vai ficar como um dos mais negros da história da educação em Portugal. Mas nada disto revolta os militantes socialistas?
 
Jorge Carreira Maia»
 
IN: http://emgestaocorrente.blogs.sapo.pt/86046.html
 
publicado por Alex.S. às 11:43
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